Pelo Avesso

em 29 outubro 2014


Hoje eu acordei querendo mudar, ver o mundo de outra maneira. Pelo avesso. Não costumo usar roupas chiques, nem me maquiar logo cedo. Mas hoje vou fazer tudo o que não costumo fazer. Me vesti com um vestido bem elegante. Calcei meu salto de 10 cm e fiz uma maquiagem. Fiquei mais parecendo uma boneca. Desci, tranquei meu apartamento e peguei o táxi. Fui a uma cafeteria. Chegando lá encontro pessoas cultas, falando de negócios. Nunca senti excitação em falar com essas pessoas. "Lembre-se Lú, pelo avesso", digo a mim mesma. Sento-me e começamos a conversar sobre o clima, a bolsa de valores e qual foi o último discurso do presidente. "Pessoas bobas!". Começamos a beber um café doce demais. Ahrr, prefiro mil vezes a minha cerveja. Terminamos a conversa, ainda eram nove da noite. Peguei o táxi, e o destino não era meu pequeno apartamento. Estava pensando em me hospedar em algum hotel chique, só que olho na carteira e vejo que meu dinheiro esta mal dando para um hotel de duas estrelas. Decido ir para o centro dessa cidade que nunca dorme. Vou ao teatro assistir ao musical. Chegando no centro, pago o taxista e vou correndo ver o que esta em cartaz. Só tinha "Romeu e Julieta". Felizmente o musical ia começar em poucos minutos. Compro meu ingresso e me sento nas poucas cadeiras que restaram. Quanta gente que gosta de sofrer! Acabo de me lembrar que não comi nada até agora, só o café/almoço em casa. Agora é tarde demais, o espetáculo já começou. Olho a minha direita, pessoas chorando. Olho para minha esquerda mais pessoas chorando. Realmente é emocionante porém não chega a tanto. Acaba o musical, todos aplaudem de pé. Sou uma das primeiras a sair do teatro, quase correndo. Esses sapatos estão me matando.
Está um frio de lascar e não sei se ainda estou no meu dia pelo avesso. Enquanto penso, paro na primeira lanchonete que vejo. Que hot dog dos deuses!! Primeiros vestígios de que estou voltando ao que sou. Arranco os saltos, enfio na bolsa e tiro meus queridos chinelos. Visto meu casaco, sempre deixo de reserva na bolsa. Compro mais um hot dog pra viagem. Infelizmente não tenho dinheiro para o táxi, e quer saber que se dane o táxi. O metrô passa na esquina de casa. 
Agora estou a caminho da estação. Desço as escadas, pago a passagem e chego a plataforma. Depois de dez minutos o trem chega. Entro, e me sento. Aqui esta bem vago. Pego um livro e começo a ler. São quarenta minutos do centro até o meu bairro. Chegamos! Guardo o livro, desço do trem e começo a andar em direção a saída.
Enfim, estou na rua de casa. Conto trezentos passos da esquina até minha casa. Não costumo fazer isso, mas não tive escolha. Abro a porta de baixo, subo as escada e finalmente chego ao meu apartamento. Largo a bolsa no chão, jogo os chinelos no canto perto da porta. Arranco o vestido elegante, que só uso em ocasiões especiais. Fico só de sutiã e calcinha. Ligo a TV e vou pro banheiro tomar um belo banho. Tiro toda a maquiagem. Cara limpa, essa sou eu. Visto um pijama velho e calço meu par de meias favorita. Sento quase deitada no sofá comendo o hot dog. Continua uma delícia! Na TV está passando meu filme de ação favorito. Ainda bem que começou agora. 
O filme acaba, olho no relógio e são quatro da manhã. Me levanto, escovo os dentes e vou direto pra cama. O sono ainda não chegou e fico refletindo sobre meu dia. A única coisa que vem a minha cabeça: farsa. Todo este dia foi uma grande farsa! Apenas atuei muito bem. E percebi nessas vinte e quatro horas que muitas pessoas ao me redor são assim, eles fingem ser o que não são. Inventam uma personagem só para ficar em algum meio e ser aceito pela sociedade. 
Sinceramente, prefiro as pessoas do jeito que elas são. Sem máscaras, sem fingimento, sem a obsessão de querer agradar o outro e se esquecer de si mesmo. Com certeza foi uma grande experiência e chegou ao fim. São quatro e cinquenta, o sono chegou. Fecho os olhos. E mais nada...

- Amanda Félix

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